16.10.12

 

Resposta ao Leitor

Meu Caro Sr. João Braga,
Agradeço a sua leitura atenta do artigo que aqui publiquei sobre «Salazar e o Salazarismo», tal como os vivi, apesar da minha juventude, ao tempo, e tal como os tenho estudado em alguma da copiosa literatura que a respeito desses temas tem sido publicada.
Sobre a primeira das suas pertinentes observações, arguirei que Salazar poderia inicialmente ser desapegado do Poder, mas, com o tempo, ter-se-á afeiçoado ao hábito de mandar, acabando, porventura, por se julgar, não sem alguma razão, figura providencial do Regime nascido da Revolução de 28 de Maio de 1926.
A meu ver, no entanto, depois de 1945, havendo triunfado, na Europa e na Ásia, os regimes democráticos parlamentares, Salazar ficou com fraca audiência na nova conjuntura política internacional.
Na Europa Ocidental, apenas Franco manteria com ele alguma afinidade político-ideológica. Não mencionei Franco no artigo, como não referi outros ferozes Ditadores europeus, nomeadamente o tenebroso Ceausescu e o cínico Erich Honecker, por mero acidente e não porque os considere menos nocivos para os seus respectivos povos, não caindo, todavia, na confusão de equiparar Franco a Ceausescu ou a Honecker, uma vez que o governante espanhol averba a seu favor certos feitos globalmente bastante positivos, não obstante os excessos repressivos a que recorreu prolongadamente no tempo, muito para lá do período de fervor ideológico experimentado no decurso da sangrenta Guerra Civil de que saiu vencedor.
Quanto ao que poderia suceder em Portugal, acaso Salazar tivesse saído de cena após 1945, não acho lícito raciocinar a partir da decepção que temos sofrido com os políticos revelados pelo regime de Abril de 74.
Tratava-se de outro tempo, de outra gente, com as suas legítimas aspirações, sem esquecer, apesar disso, que os inimigos jurados de Salazar, Comunistas, principalmente, constituiriam então um formidável bloco de ameaça política, pela auréola de vitória associada à aliança do seu patrono e santo José Estaline com os líderes ocidentais, que, conjuntamente, haviam derrotado o totalitarismo ítalo-alemão-japonês.
É sempre vão pretender interpretar a História, na base do que ela poderia ter sido se determinadas circunstâncias não ocorridas se tivessem efectivamente verificado.
Sobre o problema do Ultramar, mantenho o que defendi no artigo. O Regime reagiu à explosão do terrorismo, inicialmente bem, mas depois faltou-lhe abertura, visão política e sentido de oportunidade para agenciar uma saída para o conflito, sendo certo que nenhum Regime, nenhuma Nação pode sustentar indefinidamente uma Guerra, quando os seus filhos, com razão ou sem ela, não se acham dispostos a arriscar a vida pela sua causa.
Sobre os crimes de intenção política atribuídos ao regime salazarista que menciona não tenho conhecimentos seguros para corroborar ou infirmar a sua versão. Retenho sempre, porém, a sua diminuta dimensão comparativamente com os praticados por outros regimes, que os mesmos comunistas, tão assanhadamente anti-salazaristas, por sistema, desculpavam, justificavam ou simplesmente ignoravam.
Dessas imensas atrocidades perpetradas pelos regimes comunistas, criadores dos tristemente célebres Gulagues humanos, ficou abundante bibliografia que nenhuma censura, acredito, logrará jamais apagar, para escarmento da Humanidade.
Renovo os agradecimentos pela leitura comprovadamente atenta e interessada, como pelos pertinentes comentários aqui expendidos.
AV_Lisboa, 16-10-2012

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